Meus amigos viajantes e os amigos dos meus amigos sempre me pedem sugestões de "cantinhos" parisienses. Daqueles lugares que reflitam a alma de Paris - as cidades possuem também uma alma - pela qual, como eu, venham se apaixonar, e que lhes permita um novo centro de gravidade: "Um lugar do qual se vai para sempre voltar", como falávamos eu e o poeta Antônio Siqueira num verso de nossa mais antiga parceria poética.
O lugar é frequentado por amantes da cidade e quase sempre entabulo uma animada conversa com meus vizinhos, compartilhando impressões da viagem ou sobre a poesia dos mais ilustres amantes da " fada verde", como foi batizada a bebida no fin du siècle.
Após três ou quatro doses estou pronto para o jantar, que previamente reservo no La Coupole. Lugar amplo em estilo art deco, que após inaugurado no natal de 1927, como lembra o Sérgio Augusto ( E foram todos para Paris. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011), logo virou um lugar de literatos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas e toda sorte de tipos inteligentes nos anos que se seguiram. Vou primeiro ao bar, com muita imaginação, peço um dry martini à moda do James Bond. Sou logo reconhecido!!
Convidado com todas as cerimônias a acomodar-me no imenso salão, peço, invariavelmente, meu curry d'agneau fermier, servido por dois indianos. O acompanhamento é sempre um Saint-Émillion grand cru conforme a disponibilidade da carta.
Após fazer da garrafa um cadáver, como diz o mestre Eros Grau (Paris: Quartier Saint-Germain-Des-Prés. São Paulo: Globo, 2011), o tempo fica doido (não eu!). Olho do lado, - é a Kiki sem metafísica! - sopra-me um cara que de repente aparece sentado ao meu lado com um forte sotaque lusitano e hálito de bagaceira. Estou delirando? A moça abre abre um largo sorriso e depois se insinua deixando piscar os olhos num esquecido código do desejo. É a Kiki, aqueles lábios carnudos, fogueira devoradora de almas! demônio de Montparnase! Ela está acompanhada. É o Hemingway! hoje não vai dar pra encarar o papá e não parece uma boa ideia comprar uma briga com a geração perdida!
Fecho os olhos num ritual de invocação da realidade, torno a abrir e num lampejo de razão peço a conta, que pago sôfrego, levantando-me, saio polidamente despedindo-me com um aceno da Gertrude Stein, que estava sentada do outro lado para flertar a Kiki.
Amanhã vou ao triângulo das bermudas, nome que dei a esquina do Boulevard Saint-Germain com St Benoît, onde ficam a Brasserie Lipp e os Cafés Flore e Les Deux Magots, flanando por lá, quem sabe, encontro Kiki sozinha... Quem sabe, noutra loucura do tempo possamos ler juntos um poema do Éluard...
Leria para aquela dama, claro que acompanhado d'un verre de chablis, alguns versos de um poema apaixonante do Paul:
Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem
E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria
E esse fogo nu que me pesa
Torna a minha força suave e dura
Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos
Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito
Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.
Tem um final, minha história, mas é meio impróprio e eu não digo... Fiquem com os endereços e aproveitem a belle ville!!
Endereços:
La Fée Vert: 108 Rue de la Roquette, 75011 Paris, França
La Coupole: 102 Bd du Montparnasse 75014 Paris
Tél : +33 (0)1 43 20 14 20 - Metro Vavin
Ouvert 7J/7 de 8h30 à minuit (23h00 dimanche et lundiBrasserie Lipp: 51 Boulevard Saint-Germain, 75006 Paris, França
Café Flore: 72 Boulevard Saint-Germain, 75006 Paris, França
Les Deux Margots: 6 Place Saint-Germain des Prés, 75006 Paris, França
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